A igreja e a responsabilidade social

Que relação há entre responsabilidade social e evangelização? A Bíblia trata da responsabilidade social ou é este um tema presente apenas no debates entre sociólogos, políticos e educadores?

O que é responsabilidade social?

Responsabilidade Social diz respeito ao cumprimento dos deveres e obrigações dos indivíduos e empresas para com a sociedade em geral (http://pt.wikipedia.org/).

Responsabilidade Social é o conjunto de metas sociais focadas na melhoria da qualidade de vida da população e estabelecidas com base em indicadores periodicamente mensurados. (http://leaozinho.receita.fazenda.gov.br).

O precedente bíblico da responsabilidade social

Uma olhada atenta à Bíblia deixa claro o espaço que ela dedica à temática social. O Antigo Testamento está repleto de preceitos, instituições e narrativas referentes ao assunto. As figuras do pobre, do órfão, da viúva e de outras pessoas em situação de fragilidade e desamparo povoam as Escrituras. A lei de Moisés continha dispositivos que iam além do mero atendimento de necessidades imediatas, criando condições para que houvesse maior justiça e menor desigualdade na sociedade de Israel (Lv 19.9-10; 23.22; Dt 24.19-21; Lv 25.8-34). Quando lemos “os profetas”, tais como Isaias, Oséias, Amós e Miquéias encontramos assuntos como a justiça e a misericórdia.

Ao chegarmos ao Novo Testamento, encontramos Jesus estimulando seus ouvintes à prática da misericórdia e do socorro aos injustiçados, famintos, sedentos e desabrigados (Mt 5, Lc 10.30-37. Mt 25.35, 36).

Após a ascensão do Mestre, encontramos uma igreja sensível a necessidade da comunidade (At 2.44). Apóstolos que estimulavam à assistência aos menos favorecidos (2 Co 8.1-15; Tg 2.24; Tg 3.9). Veja outras referências sobre a Bíblia e a responsabilidade social em http://insejecmissoes.wordpress.com/missoes-urbanas/.

A herança evangélica da responsabilidade social

Parece um fato estabelecido que pelo menos durante o último século que não somente na Inglaterra, através de Wesley com sua preocupação com a situação dos escravos africanos e nos Estados Unidos, através de Charles Finney, mas também nas agências missionárias da África e da Ásia — o Evangelho de Jesus Cristo tenha produzindo o bom fruto das reformas sociais. Finney declarou que a negligência da igreja pela reforma social entristece o Espírito Santo e constitui um empecilho para o reavivamento. Em sua 23ª. palestra sobre o Reavivamento Charles Finney afirma que o grande negócio da igreja é reformar o mundo(…).

A renúncia dos evangélicos à responsabilidade social

Em seu livro “A Grande Reviravolta, o dr. David Moberg investiga o que poderia ter causado a renúncia da igreja cristã à responsabilidade social, são elas:

1º. A preocupação dos evangélicos entre os anos 1910-1915 em vindicar os fundamentos da fé, julgando não haver tempo a perder com questões sociais.

2º. Nesse período, os evangélicos reagiram contra o assim chamado “evangelho social”, que na época estava sendo difundido pelos teólogos liberais.

3º. Outra razão para a negligência evangélica à responsabilidade social seria a desilusão e pessimismo que se seguiram à 1ª. Guerra Mundial, devido à exposição da maldade humana. Programas sociais anteriores haviam falhado. O homem e a sociedade pareciam irreformáveis.

4º. Disseminava-se o ensino pré-milenista que crê que o mundo atual é tão mal que qualquer melhora ou redenção se torna impossível; ele continuará se deteriorando mais e mais, até a vinda de Jesus, que estabelecerá seu reinado milenar aqui na terra, sendo assim não faz sentido tentar reformá-lo.

5º. Os evangélicos também se alienaram das questões sociais devido a difusão do cristianismo entre as pessoas de classe média, as quais supostamente ignoravam a causa do negro e dos pobres.

A maioria virou as costas. Entretanto, durante os anos 60, a população jovem começou a se revoltar contra o materialismo, a superficialidade e a hipocrisia… os evangélicos recobram a moral.

1974 – O pacto de Lausanne e a responsabilidade social

O Pacto de Lausanne (Suíça) foi firmado em 1974, tratando das responsabilidades da igreja na sociedade e de um esforço coletivo das igrejas cristãs em evangelizar; firmando também diretrizes e bases da fé em Deus, Cristo e sua Palavra, como autoridade de prática e revelação divina.

“…5. Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta”…

Evangelização ou Responsabilidade Social? Evangelização e Responsabilidade Social

Durante os anos subseqüentes ao Congresso de Lausanne houve certa tensão entre os evangélicos, uns enfatizavam o evangelismo e outros a atividade social e todos se indagavam como, de acordo com as Escrituras, deveriam expressar a relação entre ambos.

Em 1982, a partir de um comitê realizado nos Estados Unidos, denominado “Consulta sobre a Relação entre Evangelização e Responsabilidade Social” a atividade social passou a ser vista como sendo tanto uma conseqüência quanto uma ponte para a evangelização, e de fato se declarou que os dois eram parceiros.

Apesar do vasto argumento, pode ainda existir o questionamento: por que deveria o cristão envolver-se com o mundo e seus problemas? A resposta — Somos a reprodução de Jesus Cristo Seu caráter e em Sua missão. Somos enviados ao mundo tal como o Pai o O enviou – Jo 20.21.

Se a missão cristã é para ser modelada pela missão de Cristo, ela certamente implicará — assim como Ele o fez — penetrarmos no mundo das pessoas. Isto significa entrar no mundo dos seus pensamentos, da sua tragédia e solidão, a fim de compartilhar Cristo com eles lá onde eles estão.

Significa disposição para renunciar a conforto e à segurança de nossa própria formação cultural, a fim de nos doarmos em serviço a indivíduos de outra cultura, de cujas necessidades quem saber jamais tenhamos conhecimento ou experiência.

Bibliografia: Stott, J. O cristão em uma sociedade não cristã. 1990. Ed. Vinde.

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